Hiperadrenocorticismo Canino: o que é e como diagnosticar?

25 de outubro de 2019 por veterinaria

O hiperadrenocorticismo, ou, Síndrome de Cushing, é uma endocrinopatia caracterizada pela superprodução de glicocorticóides.

Normalmente, em uma situação fisiológica de estresse, o animal responde através de um mecanismo envolvendo o eixo hipófise-adrenais. A hipófise secreta o ACTH que por sua vez estimula as glândulas adrenais a produzirem o cortisol. Em uma situação normal, a produção de cortisol faz um feedback negativo a hipófise, que por sua vez, diminui a secreção de ACTH, mantendo assim o equilíbrio desse mecanismo.

No caso do animal doente, grandes quantidades de cortisol são secretadas, e a exposição prolongada e crônica do animal a esse excesso de glicocorticóides resultam nos sinais clínicos e alterações características da doença.

Quais as causas?

O hiperadrenocorticismo é classificado de acordo com a região aonde se origina a doença. O HAC primário, também denominado hipófise-dependente, origina-se na hipófise e representa cerca de 85% dos casos. Ele se dá pela presença de tumores que provocam a secreção excessiva de ACTH o que leva a produção excessiva de cortisol. Nesses casos, o feedback negativo não está acontecendo e a secreção de ACTH se torna muitíssimo elevada.

O HAC secundário, cerca de 15% dos casos, é causado por tumores nas adrenais (cerca de 50% são benignos). Nesse caso, esses tumores autônomos produzem grandes quantidades de cortisol e acabam suprimindo o eixo hipotálamo-hipófise, fazendo com que a secreção de ACTH diminua. Nesse quadro, a glândula adrenal contralateral se atrofia e todas as células da glândula que possui o tumor também.

E por último, o HAC iatrogênico. Ele é causado principalmente pelo uso prolongado e excessivo de glicocorticóides (tratamento de dermatites, tratamentos oculares, etc). Nesses pacientes, o eixo hipotálamo-hipófise é normal e o que acontece é que a grande quantidade de glicocorticoide circulante inibe o ACTH hipofisário e causa atrofia bilateral do córtex das adrenais. Esses animais possuem exames condizentes com hipoadrenocorticismo e sinais clínicos de hiperadreno.

Sinais Clínicos

Animais com hiperadrenocorticismo possuem sintomas que muitas vezes podem ser inespecíficos e deixar o clínico na dúvida sobre qual caminho seguir. São sintomas presentes na grande maioria das endocrinopatias como: poliúria, polidipsia, polifagia, abdômen pendular, letargia, ganho de peso acima do normal, fraqueza de membros. A pelagem fica com aspecto quebradiço, pode existir infecções de pele recorrentes e que não melhoram com tratamento.

Antes de diagnosticar…

É importante ressaltar que a clínica deve andar de mãos dadas com o diagnóstico. Estamos vivendo um cenário de super-diagnóstico de doenças endócrinas, principalmente, do hiperadrenocorticismo. Muitas vezes o animal apresenta um ou dois sinais clínicos e um resultado de exame falso positivo, que pode fazer com que esse animal seja tratado indevidamente e sofra percas irreversíveis.

Alterações em parâmetros isolados como ALT, FA, cortisol, insulina, glicose, não são utilizados para confirmar qualquer diagnóstico.

Por onde começar?

Todos os animais suspeitos precisam passar primeiramente por exames de triagem completos e posteriormente, realizar as provas diagnósticas específicas e outros exames complementares necessários.

1- Você possui um animal clinicamente suspeito

2- Hemograma e bioquímicos

O hemograma pode apresentar um leucograma de estresse. Pode haver também neutrofilia e monocitose, linfopenia e eosinopenia. Nos testes bioquímicos, algumas alterações são clássicas como o aumento de FA. Mas lembrando que ela não é um achado patognomônico do HAC e pode estar presente também em quadros de hepatopatias, diabetes, pancreatite e neoplasias.

Um valor normal de FA não exclui a presença do HAC, e um valor alterado não confirma.

Outra alteração importante é a hiperglicemia. Isso porque o excesso de glicocorticóides pode causar uma resistência insulínica e cerca de 10% dos animais com HAC irão desenvolver diabetes. *Na nossa rotina, esse número chega a ser maior que 10% e notamos que a maioria dos animais com HAC desenvolvem a diabetes em algum momento de suas vidas.

3- Exame de urina

Podemos observar hipostenúria ou isostenúria, proteinúria, bacteroúria e glicosúria.

Sobre o Cortisol Basal…

Muitos veterinários quando não recebem a autorização do tutor para realizar os testes necessários para confirmação do HAC, acabam solicitando apenas o cortisol basal na esperança de que ele estando alterado, a doença seja confirmada. O cortisol basal não funciona como diagnóstico do HAC, isso porque fisiologicamente, o cortisol oscila ao longo do dia, e essas variações nem sempre indicam que o animal esteja doente.

Testes Específicos

Após os exames de triagem relacionados a clínica, exame físico e histórico do animal, é hora de confirmar o diagnóstico através de testes específicos que irão determinar se o HAC é de origem adrenal, hipofisária ou iatrogênica.

Relação Cortisol x Creatinina

Esse teste realizado em um amostra de urina (obrigatoriamente a primeira da manhã) analisa a concentração de cortisol urinário. É um teste não invasivo, de fácil realização (pode ser realizado em casa) e possui uma sensibilidade de até 95%, ou seja, caso o teste dê positivo, outros testes precisam ser realizados a fim de confirmar a doença, porém, um resultado negativo não descarta a patologia.

Teste de Estimulação por ACTH

É o teste de eleição para uma primeira abordagem no animal suspeito. Além de diagnosticar o Hiperadrenocorticismo, também pode funcionar para diagnosticar o Hipoadrenocorticismo.

Uma dose de ACTH é administrada e estimulará a adrenal a produzir cortisol. Em um animal doente, essa quantidade de cortisol produzida será muito superior a quantidade esperada.
Em casos de HAC iatrogênico, não haverá resposta ao estímulo pelo ACTH e o cortisol basal estará abaixo do normal.

Esse teste também é utilizado para o acompanhamento periódico do tratamento da Síndrome de Cushing e deverá ser realizado conforme a orientação do veterinário.

Teste de Supressão por Dexametasona

Atualmente, este teste tem sido eleito o teste de escolha para diagnóstico do HAC devido a sua alta sensibilidade e alta especificidade. Ele se baseia na administração de uma baixa dose de Dexametasona (corticóide) e espera-se um efeito supressor do eixo hipotálamo-hipófise.

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